Afastamento por saúde mental soma 546 mil casos em 2025, e a NR-1 já pode multar quem não colocar isso no orçamento
Afastamento por saúde mental somou 546 mil casos em 2025 (+15% sobre 2024), e a NR-1 já multa empresas sem plano de risco psicossocial desde maio de 2026.
Em 2025, o INSS concedeu 546.254 licenças por transtorno mental, o maior número da série histórica e uma alta de 15% sobre os 472 mil afastamentos de 2024, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Ansiedade e depressão já formam a segunda maior causa de afastamento do trabalho no país, atrás só das doenças da coluna. O dado chega junto com uma mudança de regra: desde 26 de maio de 2026, a NR-1 fiscaliza risco psicossocial com o mesmo peso que já fiscaliza risco físico, químico ou ergonômico, e pode multar ou até embargar quem não tiver um inventário documentado. Para quem monta o orçamento de headcount, saúde mental e capacidade de time acabaram de virar a mesma conta.
#Quanto cresceu o afastamento por saúde mental no Brasil?
Cresceu 15% em um ano: dos 472 mil afastamentos concedidos em 2024 para os 546.254 registrados em 2025, a maior marca da série histórica e o segundo recorde em dez anos, segundo o Ministério da Previdência Social. O ritmo mensal também acelerou, de uma média de 39.360 concessões por mês em 2024 para 44.575 em 2025. Os números se referem a licenças por incapacidade temporária, o benefício que o INSS concede quando alguém precisa se afastar do trabalho por mais de 15 dias seguidos.
O detalhamento por diagnóstico mostra onde o problema se concentra. Ansiedade respondeu por 166.489 licenças em 2025, e depressão por outras 126.608, o suficiente para colocar as duas condições juntas na segunda posição entre as causas de afastamento do trabalho no país, atrás apenas das doenças da coluna. No total, os transtornos mentais e comportamentais já representam 13,6% de todos os auxílios-doença concedidos pelo INSS. A distribuição por sexo também chama atenção: mulheres somaram 346.613 dos afastamentos, 63,5% do total, contra 199.641 registrados entre homens. Numa folha equilibrada entre os dois grupos, esse desnível já indica onde concentrar qualquer ação de prevenção, antes mesmo de a lei exigir isso por escrito.
Os afastamentos por transtornos mentais e comportamentais representaram, em média, 13,6% de todos os auxílios-doença concedidos pelo INSS em 2025, atrás apenas das doenças osteomusculares como causa de afastamento do trabalho no país.
Ansiedade
Licenças concedidas pelo INSS em 2025 com diagnóstico de transtorno de ansiedade
166.489
o diagnóstico isolado mais comumDepressão
Licenças concedidas pelo INSS em 2025 com diagnóstico de episódio depressivo
126.608
segundo diagnóstico mais comumSomadas, ansiedade e depressão respondem por 293.097 das 546.254 licenças por saúde mental concedidas em 2025, e colocam as duas condições juntas na 2ª posição entre as causas de afastamento do trabalho no Brasil, atrás só das doenças da coluna (Ministério da Previdência Social, dados do INSS).
#O que muda com a NR-1 a partir de maio de 2026?
Muda a régua de fiscalização: desde 26 de maio de 2026, o auditor fiscal do trabalho pode autuar, e em caso grave embargar, o estabelecimento que não tiver um inventário de risco psicossocial, do mesmo jeito que já faz hoje com risco físico, químico ou ergonômico. A mudança vem da Portaria MTE nº 1.419/2024, que atualizou o Anexo 1.5 da Norma Regulamentadora nº 1 para incluir fatores de risco psicossociais dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, o mesmo documento que já cobre risco de acidente e exposição a agentes químicos e biológicos.
Entre maio de 2025 e maio de 2026 valeu uma fase educativa, em que o auditor orientava a empresa sem aplicar multa. Esse prazo terminou. O Ministério do Trabalho e Emprego confirmou publicamente que não haveria novo adiamento, mesmo com pedidos do setor produtivo, e em 6 de maio publicou a primeira leva de perguntas e respostas sobre o capítulo, com 22 esclarecimentos para empresas e profissionais de saúde ocupacional.
Entre maio de 2025 e maio de 2026, o auditor fiscal do trabalho orientava sem multar. Esse prazo terminou: a NR-1 agora fiscaliza o inventário de risco psicossocial com o mesmo peso que já fiscaliza risco físico, químico e ergonômico, com possibilidade de autuação e, em caso grave, embargo do estabelecimento.
Isso reposiciona uma pergunta que até pouco tempo ficava só no radar do RH: quanto custa não ter esse inventário pronto? A resposta virou tangível de dois jeitos. Um é o risco regulatório direto, com multa e embargo cabíveis a partir de agora. O outro já está na linha de afastamento: cada um dos 546 mil casos de 2025 tirou alguém da operação por, no mínimo, 15 dias seguidos, o piso para o INSS conceder o auxílio-doença.
#Por que isso é uma conta de headcount, não só de RH?
Porque cada afastamento superior a 15 dias abre um vazio de capacidade que o orçamento de pessoal raramente modela: alguém segue vinculado à folha, mas sem entregar o que a vaga previa, enquanto hora extra ou um backfill temporário cobrem a lacuna. É o mesmo hiato que descrevemos em capacidade real do headcount: vaga aprovada não é o mesmo que capacidade instalada. A diferença é que, aqui, o vazio nasce depois da contratação, não antes dela, e é mais difícil de prever por área ou por trimestre, o que o torna ainda mais perigoso para quem apresenta número de pessoal ao board. Como mostramos em custo de pessoal ao board, só 27% dos executivos confia que o RH entrega uma leitura confiável sobre risco de pessoas; um afastamento que estoura a hora extra do trimestre sem aviso prévio é exatamente o tipo de furo que alimenta essa desconfiança.
Existe ainda uma segunda conta, mais lenta, mas igual de real. Parte do tratamento de ansiedade, depressão e burnout passa pelo plano de saúde corporativo, a mesma linha que já cresce acima da inflação geral todo ano, como mostramos em inflação médica no orçamento de pessoal. Tratar afastamento e sinistralidade do plano como dois assuntos sem relação nenhuma esconde que os dois puxam o mesmo grupo de diagnósticos, e que reduzir um tende a aliviar o outro.
| O que os dados de 2025 e 2026 mostram | Número | Fonte |
|---|---|---|
| Afastamentos por saúde mental em 2025 | 546.254 (recorde histórico) | Ministério da Previdência Social |
| Alta sobre 2024 | 15% (de 472 mil para 546 mil) | Ministério da Previdência Social |
| Licenças por ansiedade em 2025 | 166.489 | Ministério da Previdência Social |
| Licenças por depressão em 2025 | 126.608 | Ministério da Previdência Social |
| Fatia dos auxílios-doença do INSS em 2025 | 13,6% | Ministério da Previdência Social |
| Afastamentos entre mulheres | 346.613 (63,5% do total) | Ministério da Previdência Social |
| Início da fiscalização plena da NR-1 sobre risco psicossocial | 26 de maio de 2026 | Portaria MTE nº 1.419/2024 |
#Como colocar risco psicossocial no orçamento de pessoal, na prática?
O primeiro passo é juntar, na mesma mesa, quem hoje trata esse assunto em separado. Quatro ajustes concentram a maior parte do ganho, nessa ordem:
- Trate o inventário de risco psicossocial como entregável de orçamento, não só de compliance. Junte RH, segurança do trabalho e FP&A na mesma reunião, porque o documento que evita a multa é o mesmo que embasa o cenário de custo.
- Meça o afastamento por saúde mental como indicador líder, ao lado do turnover. Comparar o número trimestre a trimestre, por área, aponta onde a exposição está concentrada antes que o INSS avise pela folha.
- Reserve uma margem de cobertura para afastamento, não só para férias e rescisão. Um percentual sobre a folha das áreas mais expostas cobre hora extra e backfill sem estourar o orçamento já aprovado.
- Leve esse indicador para a revisão trimestral de headcount, ao lado de turnover e vagas em aberto. É o roteiro que detalhamos em revisão trimestral de headcount, e é onde um desvio de afastamento vira decisão com dono e prazo, em vez de estatística isolada do RH.
O recorde de 2025 não foi um pico isolado: é a segunda vez em dez anos que a série de afastamento por saúde mental bate recorde, e a fiscalização da NR-1 chegou justamente quando essa curva está mais alta. Como já mostramos no pilar sobre FP&A de folha de pagamento, o problema raramente é falta de dado bruto, é falta de um forecast rápido o suficiente para tratar essas duas linhas juntas. Quem ainda separa saúde mental de headcount vai sentir o custo dos dois lados ao mesmo tempo: na hora extra que cobre quem está afastado, e na notificação do auditor fiscal que pergunta pelo inventário que ainda não existe.
Total de afastamentos por saúde mental concedidos pelo INSS em 2025 (546.254, recorde histórico, alta de 15% sobre os 472 mil de 2024), detalhamento por diagnóstico (166.489 licenças por ansiedade e 126.608 por depressão), fatia sobre o total de auxílios-doença (13,6%) e distribuição por sexo (346.613 entre mulheres, 63,5% do total, e 199.641 entre homens): Ministério da Previdência Social, dados do INSS sobre benefícios por incapacidade temporária, divulgados em janeiro de 2026 e sistematizados pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT). Cronologia da NR-1 sobre risco psicossocial (Portaria MTE nº 1.419/2024, fase educativa de 26 de maio de 2025 a 26 de maio de 2026 e fiscalização plena a partir dessa data, com autuação e possibilidade de embargo): Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho (Sinait).