Planejamento (FP&A)

A demanda por talento brasileiro no exterior subiu 53% em 2025, e a maioria das empresas brasileiras não vai reajustar salário em 2026

A demanda internacional por talento brasileiro subiu 53% em 2025, mas 45% das empresas no Brasil não vão reajustar salário em 2026. Veja o impacto no headcount.

Time Gridzi9 min de leitura

A demanda internacional por profissionais brasileiros subiu 53% em 2025, segundo o Relatório de Contratações Internacionais da Deel, puxada por empresas da Argentina, do México e do Reino Unido pagando em dólar e em euro. No mesmo período, 45% das empresas brasileiras não vão reajustar nenhum salário em 2026, e só uma em cada cinco planeja um aumento real, aponta o Guia Salarial 2026 da Michael Page. É a mesma pessoa, disputada por dois orçamentos que não se falam, e a maioria dos planejamentos de headcount ainda trata isso como assunto de RH internacional, não como risco de caixa.

20%planeja aumento realde salário no Brasil+53%demanda por talentobrasileiro no exteriorO ORÇAMENTO NÃO ACOMPANHOU O MERCADOdemanda internacional por talento BR · Deel & Michael Page, 2026
A demanda internacional por talento brasileiro cresceu 53% em 2025, mas só 20% das empresas no Brasil planejam aumento real de salário em 2026.

#A demanda por talento brasileiro no exterior subiu 53%, e não é sobre preço

O dado vem do Relatório de Contratações Internacionais 2025 da Deel, plataforma global de folha de pagamento e contratação remota usada por milhares de empresas. Levantando as contratações feitas pela própria base de clientes, a Deel encontrou alta de 53% na busca por profissionais brasileiros em relação ao ano anterior, com a Argentina liderando o crescimento (84%), seguida por México (32%), Reino Unido (31%), Estados Unidos (26%) e Suécia (18%).

crescimento da demanda em 2025+84%Argentina+32%México+31%Reino Unido+26%Estados Unidos+18%Suécia

A Argentina foi o país que mais acelerou a contratação de profissionais brasileiros em 2025, com alta de 84%, à frente de México (32%), Reino Unido (31%), Estados Unidos (26%) e Suécia (18%). Colômbia fecha o grupo com 14%. Segundo a Deel, a procura se concentra em tecnologia, engenharia, produto e finanças, não em cargos de commodity que competem só por preço.

O motivo declarado pela empresa não é custo. Michelle Cascardo, gerente de vendas para o mercado intermediário da Deel na América Latina, atribuiu o movimento à qualificação técnica, não ao câmbio:

Empresas internacionais estão buscando profissionais brasileiros principalmente por sua expertise técnica em áreas como tecnologia, engenharia, produto e finanças, e não apenas por questões de custo.

Michelle Cascardo, Latam Sales Manager Mid-Market na Deel, em entrevista à Exame (2026)

A leitura muda o problema que o planejamento de headcount precisa resolver. Se fosse só câmbio favorável, a resposta seria esperar o dólar cair. Como é qualificação, a demanda tende a continuar mesmo se a moeda se acomodar, porque a empresa lá fora está comprando uma competência específica que também é escassa no mercado dela.

#Quem está sendo disputado, e por que a estrutura facilita

As funções mais procuradas concentram desenvolvimento de software, engenharia, produto, crescimento e liderança técnica, exatamente o recorte que já aparece como o mais difícil de preencher no mercado brasileiro. Como mostramos no texto sobre escassez de talentos, a dificuldade de contratação no Brasil está travada em 80% desde 2021, e o tempo médio de permanência no emprego já caiu 27% em cinco anos. Quando o mesmo perfil escasso localmente também é o mais visado do exterior, a empresa brasileira concorre por ele duas vezes: contra a vaga da rua e contra a vaga em dólar.

A engenharia contratual favorece esse movimento. A maior parte dessas contratações acontece via prestação de serviço formal: o profissional constitui empresa, emite nota fiscal e recebe em moeda estrangeira, sem precisar sair do país nem mudar de regime trabalhista no Brasil. Não é vínculo empregatício com empresa estrangeira, é exportação de serviço técnico. Isso reduz o atrito jurídico dos dois lados e explica por que o modelo cresce tão rápido: cerca de 80% dessas vagas remotas concentram-se em empresas americanas, com faixas que passam de US$ 110 mil por ano em cargos de desenvolvimento e chegam a mais de US$ 150 mil em posições sênior, o equivalente a algo perto de R$ 60 mil por mês.

#Enquanto isso, o orçamento de salário no Brasil andou para trás

O contraste aparece no mesmo período. O Guia Salarial 2026 da Michael Page, construído a partir de pesquisa com empresas de diferentes portes e setores no Brasil, encontrou 45% das companhias sem nenhum plano de reajuste salarial para 2026, e apenas 20% com intenção declarada de aumento real, acima da inflação. Do lado da contratação, 44% das empresas pretendem abrir vaga, mas a maioria projeta aumentos moderados, de até 10%, e 49% planejam simplesmente manter o quadro atual.

Crescimento da demanda internacional por talento brasileiro (2025)53%
Empresas brasileiras que planejam aumento real de salário em 202620%

Enquanto a demanda internacional por profissionais brasileiros cresceu 53% em 2025 (Deel), apenas 1 em cada 5 empresas brasileiras planeja um aumento real de salário em 2026, e 45% não vai reajustar salário nenhum, segundo o Guia Salarial 2026 da Michael Page. É o mesmo talento, competindo em duas moedas diferentes.

O quadro geral de emprego formal não desmente essa cautela, só mostra que ela convive com crescimento. O novo Caged fechou o primeiro semestre de 2026 com 921,6 mil vagas formais criadas no país, alta de 1,96% no estoque, puxada por Serviços (571,9 mil vagas) e Construção (169 mil vagas, +5,73%). Empresa abrindo vaga e empresa segurando o salário parado não são contraditórios: é abrir headcount novo sem tocar na base de quem já está dentro, exatamente o time que a demanda internacional está mirando. Isso aparece de forma ainda mais direta no mercado de trabalho apertado que já discutimos aqui: taxa de desemprego no menor nível da série histórica e 80% das empresas relatando dificuldade para preencher vaga, um cenário em que reter fica tão caro quanto contratar.

#O que muda no planejamento de headcount: mapear exposição, não reajustar tudo

Tratar isso como pauta exclusiva de RH internacional é o erro mais caro que dá para cometer aqui. A resposta certa não é bloquear trabalho remoto nem tentar competir salário por salário com quem paga em dólar, é entender exatamente onde o orçamento de pessoal está exposto e decidir com esse número na mesa, não depois que a pessoa já pediu demissão. Isso já aparece na prática de quem está mais avançado com compressão salarial: uma vaga nova pode custar até 14% a mais que o salário de quem já entrega o mesmo trabalho, e a demanda em dólar piora essa distância de dentro para fora, não só de fora para dentro.

  1. Marque os cargos com exposição real ao mercado internacional. Normalmente concentrados em engenharia de software, dados, produto e finanças com inglês fluente, não a empresa toda.
  2. Cruze esses cargos com o compa-ratio de cada pessoa. Quem já está abaixo da média de mercado local, e ainda por cima abaixo do que o mercado internacional paga pelo mesmo perfil, é a prioridade real de retenção, não quem só pediu um aumento.
  3. Reserve uma verba de retenção específica, separada do reajuste anual. Um orçamento de headcount que só prevê dissídio e mérito não tem como reagir a uma proposta em dólar que chega em semanas, não em ciclo de avaliação anual.
  4. Compare o custo da retenção com o custo de repor. Perder alguém desse perfil não é só reabrir a vaga: é tempo de contratação mais longo justamente onde a escassez já é maior, e um custo de turnover que tende a superar o valor do ajuste que teria evitado a saída.
A demanda por talento brasileiro cresce em dólar mais rápido do que o orçamento de salário cresce em real.
IndicadorNúmeroFonte
Crescimento da demanda internacional por talento brasileiro em 2025+53%Deel, Relatório de Contratações Internacionais 2025
Crescimento da demanda da Argentina / México / Reino Unido+84% / +32% / +31%Deel, 2025
Empresas brasileiras sem nenhum reajuste salarial previsto para 202645%Michael Page, Guia Salarial 2026
Empresas brasileiras com plano de aumento real de salário em 202620%Michael Page, Guia Salarial 2026
Vagas formais criadas no Brasil no 1º semestre de 2026921,6 milNovo Caged, Ministério do Trabalho e Emprego
A demanda por talento brasileiro cresce em dólar mais rápido do que o orçamento de salário cresce em real.

#Onde isso entra na régua de custo de pessoal

Nenhuma dessas quatro ações funciona sem visibilidade de quem ganha o quê, comparado a quê, e desde quando. É exatamente o cruzamento que falta na maioria das planilhas de RH: custo por cargo, compa-ratio por pessoa e tempo de casa, tudo na mesma tela, a tempo de agir antes que a proposta em dólar já esteja na caixa de entrada de quem você mais precisa manter.

A demanda por talento brasileiro no exterior não é uma onda passageira nem um problema exclusivo de quem trabalha com tecnologia. É um novo teto de referência salarial que entrou no jogo sem avisar, pago numa moeda que a maioria dos orçamentos de headcount ainda não modela. Empresas que continuarem tratando reajuste como decisão anual e uniforme vão continuar perdendo, cargo por cargo, exatamente as pessoas que custam mais caro para repor.

Crescimento de 53% na demanda internacional por profissionais brasileiros em 2025 e crescimento por país (Argentina +84%, México +32%, Reino Unido +31%, Estados Unidos +26%, Suécia +18%): Deel, Relatório de Contratações Internacionais 2025, com declaração de Michelle Cascardo, Latam Sales Manager Mid-Market, via Exame (2026). Faixas salariais em dólar de vagas internacionais remotas para desenvolvedores brasileiros: pesquisa Brazilian Global Salary 2025. Fatia de empresas brasileiras sem reajuste salarial previsto (45%) e com plano de aumento real (20%), além dos planos de contratação (44%) e manutenção de quadro (49%): Michael Page, Guia Salarial 2026. Criação de 921,6 mil vagas formais no primeiro semestre de 2026, com destaque para Serviços e Construção: Novo Caged, Ministério do Trabalho e Emprego. Escassez de talentos travada em 80% e queda de 27% no tempo médio de permanência no emprego: ver a fonte detalhada no artigo sobre escassez de talentos. Compressão salarial de até 14% entre vaga nova e salário do time atual: ver a fonte detalhada no artigo sobre compressão salarial.

#Perguntas frequentes

Quanto cresceu a demanda internacional por profissionais brasileiros?
Cresceu 53% em 2025 em relação ao ano anterior, segundo o Relatório de Contratações Internacionais da Deel. Argentina (+84%), México (+32%) e Reino Unido (+31%) lideraram esse crescimento.
Por que empresas estrangeiras contratam tanto talento brasileiro?
Segundo a Deel, o motivo principal é a qualificação técnica em áreas como tecnologia, engenharia, produto e finanças, não apenas o custo mais baixo em relação a salários pagos em dólar ou euro.
Como funciona juridicamente essa contratação internacional remota?
Na maioria dos casos, o profissional brasileiro constitui uma empresa (PJ) e presta serviço para a empresa estrangeira, emitindo nota fiscal e recebendo em moeda estrangeira. É exportação de serviço técnico, não vínculo empregatício com a empresa de fora.
Quantas empresas brasileiras vão reajustar salário em 2026?
Segundo o Guia Salarial 2026 da Michael Page, 45% das empresas brasileiras não têm nenhum reajuste salarial previsto para 2026, e apenas 20% planejam um aumento real, acima da inflação.
Como o planejamento de headcount deve reagir a essa demanda internacional?
Em vez de reajuste linear para toda a empresa, o caminho é mapear os cargos com real exposição ao mercado internacional (tecnologia, produto, dados, finanças), cruzar com o compa-ratio de cada pessoa nesses cargos e reservar uma verba de retenção específica para agir rápido quando uma proposta em dólar aparecer.
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