Planejamento (FP&A)

Workslop: cada episódio custa quase 2 horas de retrabalho e US$ 186 por mês, e 70% do Brasil já perde tempo com o mesmo problema

BetterUp e Stanford acharam workslop custando US$ 9 milhões/ano a cada 10 mil funcionários, e a Read AI achou o mesmo padrão no Brasil. Veja os dados.

Time Gridzi9 min de leitura

Uma pesquisa da BetterUp Labs com o Stanford Social Media Lab, publicada na Harvard Business Review em setembro de 2025, ouviu 1.150 profissionais de escritório nos Estados Unidos: 40% receberam, no último mês, um tipo de entrega que os pesquisadores batizaram de workslop, conteúdo gerado por IA que parece pronto e bem-acabado, mas não avança a tarefa. Cada episódio custa cerca de duas horas de retrabalho e US$ 186 por funcionário afetado ao mês, o equivalente a US$ 9 milhões por ano numa empresa de 10 mil pessoas. No Brasil, uma pesquisa da Read AI com 501 profissionais, aplicada em outubro de 2025, achou o mesmo padrão sob outro nome: 70% perdem tempo revisitando anotações ou buscando informação antiga, e 52% não sabem quem é responsável por uma decisão que a própria empresa já tomou. Para quem planeja headcount e orçamento de pessoal, esse retrabalho é uma linha de custo nova, e ainda invisível na maioria das planilhas.

40% JÁ RECEBERAM WORKSLOPpor fora: parece prontoaprovado à 1ª vistapor dentro: vazio~2h de retrabalhoBetterUp & Stanford, EUA · Read AI, Brasil 2025
Por fora, a entrega de IA parece pronta e é aprovada à primeira vista. Por dentro, está vazia e devolve quase duas horas de retrabalho a quem confiou nela.

#O que é workslop, exatamente?

Workslop é a entrega gerada por inteligência artificial que aparenta qualidade, mas carece de substância para avançar de fato a tarefa. A definição é dos seis pesquisadores por trás do estudo, Kate Niederhoffer, Gabriella Rosen Kellerman, Angela Lee, Alex Liebscher, Kristina Rapuano e Jeffrey Hancock, da BetterUp Labs e do Stanford Social Media Lab. Na prática, é o relatório com gráfico bonito e conclusão vazia, o e-mail longo que não responde à pergunta feita, ou o trecho de código que compila mas não resolve o problema. Jeffrey Hancock, professor de Stanford e um dos autores do estudo, resume o efeito em quem recebe:

Parece que faz o trabalho, mas na verdade não avança a tarefa.

Jeffrey Hancock, professor de Stanford e coautor do estudo sobre workslop com a BetterUp Labs, 2025 (tradução livre)

O termo pegou porque nomeia algo que quem trabalha com IA generativa já sentia sem saber descrever: a sensação de abrir uma entrega, perceber que tem volume e formatação, e só depois de alguns minutos notar que não tem nada dentro que ajude a decidir ou a avançar.

#Quanto isso custa, em número

Custa cerca de duas horas de retrabalho por episódio, e os próprios profissionais estimam que 15,4% do que recebem de colegas é workslop, não um caso isolado. Aplicando essa fricção ao tempo e ao salário médio dos respondentes, a BetterUp Labs chegou a US$ 186 por funcionário afetado a cada mês, o equivalente a US$ 9 milhões por ano numa empresa hipotética de 10 mil pessoas. A reação de quem recebe também tem custo, mesmo sem aparecer direto numa planilha de headcount.

Trabalhadores nos EUA que já receberam workslop no último mês

Cada episódio consome quase 2 horas de retrabalho (BetterUp Labs & Stanford)

40%

Fatia do que recebem que os próprios trabalhadores estimam ser workslop

Média declarada pelos 1.150 respondentes da pesquisa, não uma amostra do conteúdo real

15,4%

Custo anual estimado numa empresa de 10 mil funcionários

A partir de US$ 186/mês de retrabalho por funcionário afetado

US$ 9 mi

BetterUp Labs e o Stanford Social Media Lab ouviram 1.150 profissionais de escritório nos Estados Unidos, publicado na Harvard Business Review em setembro de 2025.

A reação de quem recebe workslop tem custo de clima e de confiança, e ajuda a explicar por que boa parte do investimento em IA generativa ainda não aparece em produtividade real.
O que a pesquisa mostraNúmeroFonte
Ficam irritados ao perceber que a entrega era workslop53%BetterUp Labs & Stanford, 2025
Ficam confusos com o conteúdo recebido38%BetterUp Labs & Stanford, 2025
Se sentem ofendidos com a entrega22%BetterUp Labs & Stanford, 2025
Organizações sem retorno mensurável sobre o investimento em IA generativa95%MIT Media Lab, jul/2025
A reação de quem recebe workslop tem custo de clima e de confiança, e ajuda a explicar por que boa parte do investimento em IA generativa ainda não aparece em produtividade real.

O dado do MIT Media Lab não é sobre workslop diretamente, mas explica por que o problema é maior do que parece: se o tempo que a IA economiza na produção reaparece, quase peça por peça, na revisão, o retorno sobre o investimento fica menor do que a promessa original, mesmo com adoção alta da ferramenta.

#O Brasil segue o mesmo padrão dos Estados Unidos?

Segue, com um recorte de coordenação que pesa direto sobre quem lidera equipe. A Read AI ouviu 501 adultos brasileiros de todas as regiões, que trabalham mais de 30 horas por semana, em painel on-line aplicado em outubro de 2025: quase três em cada quatro já usam IA no trabalho, e 83% dividem a rotina entre múltiplos aplicativos. O problema aparece na coordenação entre essas ferramentas, não na ferramenta isolada.

Perdem tempo revisitando anotações ou buscando informação antiga

Para entender decisões e discussões que já deveriam estar registradas

70%

Já perderam prazo ou tarefa por depender de memória ou nota pessoal

Metade dos respondentes admite essa lacuna de registro

50%

Não sabem quem é o responsável por uma decisão já tomada

Sinal direto de informação fragmentada entre ferramentas

52%

Dizem que agendar, cobrar e coordenar o time toma mais tempo do que deveria

A fricção aparece na rotina de quem coordena pessoas, não só na entrega individual

64%

Read AI ouviu 501 adultos brasileiros de todas as regiões, que trabalham mais de 30 horas por semana, em painel on-line aplicado em outubro de 2025.

Essa fricção de coordenação recai, na prática, sobre quem já carrega a pior parte da adoção de IA dentro da hierarquia. Já mostramos, no texto sobre sobrecarga de gestores intermediários, que uma pesquisa da Salesforce achou 78% dos gestores se sentindo pessoalmente responsáveis por garantir que o time use IA com sucesso, mas apenas 23% usando a ferramenta todo dia. O workslop é o outro lado dessa mesma moeda: quem menos usa a ferramenta no dia a dia é, com frequência, quem mais precisa julgar se o que a equipe entregou com ela presta.

#Por que isso é um problema de headcount, não só de ferramenta

Porque o tempo gasto revisando, corrigindo ou refazendo uma entrega de IA consome a mesma capacidade de equipe que uma vaga aberta consumiria, sem aparecer como uma linha própria em nenhum orçamento de pessoal. Uma área que perde 15% da capacidade de quem verifica trabalho para retrabalho de workslop está, na prática, operando com um cargo a menos, mesmo que o organograma mostre o quadro completo.

O efeito se espalha por outras decisões de RH que já dependem de medir trabalho com precisão. No texto sobre avaliação de desempenho na era da IA, mostramos que só 42% das empresas atualizaram o processo de avaliação para refletir o uso da ferramenta. Sem esse ajuste, quem produz volume de workslop pode aparecer, num ciclo de performance mal calibrado, tão produtivo quanto quem entrega menos peças, porém prontas de verdade. E o orçamento de pessoal dedicado a agentes de IA, que já detalhamos no artigo sobre agentes de IA no orçamento de pessoal, raramente reserva uma linha para o custo humano de verificar o que esses agentes produzem.

#O que a liderança pode fazer agora

Quatro ajustes cobrem a maior parte do risco, e nenhum deles exige parar de usar IA.

  1. Meça o retrabalho de workslop como se mede qualquer outro retrabalho. Pergunte, por área, quantas entregas geradas com IA voltam para correção antes de seguir adiante, e quanto tempo isso consome por semana.
  2. Defina, por tipo de tarefa, o que conta como entrega pronta antes de aprovar o uso da IA nesse fluxo. Um critério simples e escrito evita que cada pessoa decida sozinha se o que a ferramenta produziu já pode circular.
  3. Treine quem verifica, não só quem gera. A maior parte do treinamento de IA hoje ensina a escrever melhor prompt. Poucas empresas treinam a habilidade complementar: reconhecer rápido quando uma entrega parece pronta, mas não é.
  4. Leve o número ao orçamento de pessoal, ao lado de turnover e hora extra, e não apenas ao relatório de adoção de ferramenta. Um custo que já passa de US$ 9 milhões por ano numa empresa grande, nos dados americanos, merece o mesmo rigor de simulação que qualquer outra linha de headcount.

Workslop não é um problema que a próxima versão do modelo de IA resolve sozinha. É um problema de processo: quem define o padrão de entrega, quem verifica antes de aprovar, e quem carrega esse tempo extra na própria agenda. Enquanto essas três perguntas não tiverem dono, o retrabalho vai continuar saindo do orçamento de pessoal pela porta dos fundos, do mesmo jeito que qualquer outro custo de FP&A de folha de pagamento mal simulado.

Definição de workslop e dados sobre os Estados Unidos (1.150 profissionais de escritório ouvidos, 40% que receberam workslop no último mês, 15,4% de estimativa média de workslop recebido, US$ 186 por funcionário afetado ao mês, US$ 9 milhões por ano numa empresa de 10 mil pessoas, e as reações de 53% de irritação, 38% de confusão e 22% de ofensa), com a citação de Jeffrey Hancock: BetterUp Labs e Stanford Social Media Lab, publicado na Harvard Business Review, setembro de 2025. Dado sobre organizações sem retorno mensurável em IA generativa (95%): MIT Media Lab, julho de 2025. Dados sobre o Brasil (501 adultos brasileiros ouvidos em painel on-line, uso de IA no trabalho por quase três em cada quatro respondentes, 83% usando múltiplos aplicativos, 70% perdendo tempo revisitando anotações, 50% perdendo prazo ou tarefa por depender de memória ou nota pessoal, 52% sem saber quem é responsável por uma decisão já tomada, e 64% relatando mais tempo do que deveria em agendamento e coordenação): Read AI, outubro de 2025.

#Perguntas frequentes

O que é workslop?
É a entrega gerada por inteligência artificial que aparenta qualidade, mas carece de substância para avançar de fato a tarefa. O termo é dos pesquisadores da BetterUp Labs e do Stanford Social Media Lab, num estudo publicado na Harvard Business Review em setembro de 2025.
Quanto o workslop custa para uma empresa?
Cerca de duas horas de retrabalho por episódio e US$ 186 por funcionário afetado ao mês, segundo a BetterUp Labs e o Stanford Social Media Lab. Numa empresa de 10 mil pessoas, isso equivale a cerca de US$ 9 milhões por ano.
O workslop também acontece no Brasil?
Sim. Uma pesquisa da Read AI com 501 profissionais brasileiros, aplicada em outubro de 2025, achou 70% perdendo tempo revisitando anotações ou buscando informação antiga, e 52% sem saber quem é responsável por uma decisão já tomada, um padrão equivalente ao encontrado nos Estados Unidos.
Por que o workslop é um problema de planejamento de headcount?
Porque o tempo gasto verificando e refazendo entregas de IA consome a mesma capacidade de equipe que uma vaga aberta consumiria, sem aparecer como linha própria em nenhum orçamento de pessoal. Uma área que perde parte relevante da capacidade de quem verifica trabalho está, na prática, operando com um cargo a menos.
Como reduzir o workslop dentro de uma equipe?
Quatro ajustes ajudam: medir o retrabalho de workslop por área, definir por tipo de tarefa o que conta como entrega pronta antes de aprovar o uso de IA no fluxo, treinar quem verifica o trabalho e não só quem gera, e levar esse custo ao orçamento de pessoal ao lado de turnover e hora extra.
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