Planejamento (FP&A)

Fim da escala 6x1: a CNC estima R$ 122 bilhões de custo no comércio, e o Senado ainda não votou

A Câmara já aprovou o fim da escala 6x1, e a CNC estima R$ 122 bilhões de custo adicional ao comércio. Veja como planejar o headcount antes do Senado votar.

Time Gridzi9 min de leitura

A Câmara dos Deputados aprovou, em dois turnos e por 461 votos a 19, o fim da escala 6x1 em maio de 2026. O texto (PEC 221/2019, que tramitou ao lado da PEC 8/2025, sobre o mesmo tema) reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem corte de salário, e troca um dia de descanso por semana por dois. Para quem lidera operação em turno, seja varejo, saúde, segurança ou logística, a pergunta parou de ser se a lei muda o horário de trabalho. Passou a ser quanto essa mudança custa em headcount, e a resposta ainda varia muito entre quem já fez a conta: a CNC estima R$ 122 bilhões por ano só no comércio, o Ipea calcula menos de 1% de impacto no custo total da empresa, e um estudo da Unicamp projeta até 4,5 milhões de empregos num cenário mais agressivo de jornada. Nenhuma dessas contas foi feita para o seu quadro específico.

FIM DA ESCALA 6X1HOJE · 6X1PEC 221/2019 · 5X2+1 dia de descanso por semanaa mesma operação, cobrindo o mesmo horário, com outro headcount
Escala 6x1 hoje, escala 5x2 proposta pela PEC: a diferença de um dia por semana é a mesma operação coberta por outro headcount.

#O que a PEC do fim da escala 6x1 muda, na prática?

Muda o número mínimo de dias de descanso por semana, o teto de horas trabalhadas e o prazo para as duas coisas valerem. A Câmara aprovou o texto em dois turnos em maio de 2026, com o deputado Paulo Azi como relator das propostas que tratam do tema. O texto acaba com a escala 6x1 (seis dias trabalhados, um de descanso) e institui dois dias de descanso semanal obrigatórios. A jornada máxima cai de 44 para 42 horas em até 60 dias após a promulgação, e para 40 horas um ano depois, sempre sem redução de salário. Micro e pequenas empresas ganharam um dispositivo à parte no texto aprovado pela Câmara, que remete a uma lei complementar futura para definir uma transição mais branda para esse grupo.

O texto seguiu para o Senado em maio, e o ritmo de tramitação ainda estava em discussão entre os senadores em julho, segundo a Agência Senado. A expectativa é retomar a análise em comissões a partir de agosto, depois do recesso, antes de o texto chegar ao plenário, onde precisa de 3/5 dos votos (49 senadores) em dois turnos para virar emenda constitucional. Até a publicação deste texto, não existe data confirmada para essa votação, o que já é, sozinho, um dado relevante para quem está planejando: o cenário mais provável de 2026 é o de incerteza prolongada, não o de uma data fixa para se preparar.

Câmara aprovamai/2026 · 461 a 19Senado analisaago/2026 · comissões+60 diasjornada cai para 42h+1 anoteto de 40h semanais

Depois da promulgação, a jornada máxima cai de 44 para 42 horas em 60 dias, e para 40 horas um ano depois, sem redução de salário. O Senado ainda precisa aprovar o texto por 3/5 dos votos, em dois turnos, antes de qualquer prazo começar a correr.

#Quanto o fim da 6x1 pode custar para quem opera em turno?

Depende de quem fez a conta, mas as estimativas de maior peso partem todas de operações com turno fixo, como varejo, alimentação e farmácia, onde a folha pesa mais no custo total e a escala 6x1 é mais comum. Um estudo da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), divulgado em 23 de fevereiro de 2026, projeta uma alta imediata de 21% na folha do comércio, o equivalente a R$ 122,4 bilhões de custo adicional por ano. Somado o setor de serviços, a conta sobe para R$ 357 bilhões. A entidade também estima um repasse de até 13% aos preços ao consumidor e uma queda de 5,7% no excedente operacional bruto do comércio, R$ 73,3 bilhões a valor presente.

Na ponta operacional, o Sindilojas-SP calcula R$ 2,4 bilhões de custo adicional por ano só no varejo da cidade de São Paulo. O BTG Pactual foi mais específico sobre headcount: para manter o mesmo horário de funcionamento em quatro segmentos do varejo, o banco estima a necessidade de 30,4 mil novas contratações, sendo 10,9 mil em alimentação, 8,3 mil em farmácias, 5,8 mil em moda e 5,3 mil em e-commerce, e projeta queda de 9,5% no Ebitda do setor sem alguma medida de mitigação, chegando a 13,6% no varejo farmacêutico. Bares e restaurantes aparecem como o segmento mais exposto nas estimativas setoriais: alta de custo de mão de obra em torno de 20%, com repasse de 7% a 8% no cardápio.

Nenhuma estimativa setorial substitui o cálculo feito com o salário e os encargos reais da própria operação.
EstimativaNúmeroFonte
Custo adicional anual só no comércioR$ 122,4 bi (+21% na folha)CNC, fev/2026
Custo adicional somando comércio e serviçosR$ 357 bi/anoCNC, fev/2026
Repasse estimado aos preços ao consumidoraté 13%CNC, fev/2026
Impacto no custo total da empresa (indústria e comércio)abaixo de 1%Ipea, fev/2026
Novas contratações estimadas, 4 segmentos do varejo30,4 mil vagasBTG Pactual
Queda projetada no Ebitda do varejo sem mitigação−9,5% (−13,6% no farma)BTG Pactual
Custo adicional no varejo da cidade de São PauloR$ 2,4 bi/anoSindilojas-SP
Empregos possíveis num cenário de jornada de 36haté 4,5 milhõesUnicamp/Cesit, Dossiê 6x1
Nenhuma estimativa setorial substitui o cálculo feito com o salário e os encargos reais da própria operação.

#Por que as estimativas de custo e de emprego divergem tanto?

Porque cada estudo testa um cenário e um recorte diferentes, e boa parte dos números que circulam hoje foi calculada para o setor inteiro, não para uma operação específica. O Ipea chegou a um número bem mais moderado em fevereiro de 2026: a jornada de 40 horas eleva o custo médio da mão de obra em cerca de 8%, mas o impacto no custo total da empresa fica abaixo de 1% em setores como indústria e comércio, porque a mão de obra é uma fatia do custo total, não o custo inteiro.

Do outro lado do debate está o Dossiê 6x1, estudo do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Unicamp, coordenado pela economista Marilane Teixeira e publicado em fevereiro de 2026 com base na Pnad Contínua do IBGE. O estudo testa um cenário mais agressivo, de jornada de 36 horas, mais curta que as 40 horas aprovadas na Câmara. Nesse cenário, a redução poderia gerar até 4,5 milhões de empregos e elevar a produtividade em cerca de 4%. O mesmo levantamento mostra que cerca de 21 milhões de trabalhadores brasileiros já cumprem jornada acima das 44 horas semanais previstas em lei, um dos motivos que ajuda a explicar por que o tema chegou ao Congresso com tanta pressão popular.

Quem deve ser compensado são os trabalhadores, não as empresas.

Marilane Teixeira, economista do Cesit/IE-Unicamp, autora do Dossiê 6x1

Para quem decide orçamento, a lição não é escolher um lado do debate. É que nenhuma dessas contas, feitas para o Brasil inteiro, para um setor ou para um estado, substitui o cálculo feito para a escala de turno da própria empresa, com o salário real de cada posição e os encargos que já incidem sobre ela. Como mostramos no guia de FP&A de folha de pagamento, o número que convence o comitê de orçamento é o número calculado com o dado da empresa, não a média do setor.

#O fim da 6x1 pode reduzir um turnover que já custa caro?

Pode, e é o lado da conta que a maioria das estimativas de custo setorial não coloca na ponta do lápis: a rotatividade da linha de frente no Brasil já é altíssima, e a jornada aparece entre os fatores mais citados para isso. A rotatividade média do varejo brasileiro ficou em 36% em 2023, segundo a Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) com a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). Em supermercados, o índice sobe para 58,2% na média nacional, segundo a Future Tank (consultoria da Asserj) em 2023, variando de 37,9% no Rio de Janeiro a 70,1% no Espírito Santo. Um levantamento de 2025 apontou o varejo paulista em 60,3%. No topo da lista está o setor de bares e restaurantes, com 77,6% em 2023, segundo a Bússola & Cia.

Varejo brasileiro (média nacional)36,0%
Supermercados (média nacional)58,2%
Varejo paulista60,3%
Bares e restaurantes77,6%

Rotatividade anual por segmento: 36% no varejo em geral (SBVC + CNDL, 2023), 58,2% em supermercados, variando de 37,9% no Rio de Janeiro a 70,1% no Espírito Santo (Future Tank/Asserj, 2023), 60,3% no varejo paulista em 2025 e 77,6% em bares e restaurantes (Bússola & Cia, 2023). Jornada longa, noturna e de fim de semana aparece como um dos fatores mais citados para o índice alto nesses setores.

Jornada estendida, com turnos noturnos e de fim de semana, aparece com frequência entre os fatores citados para esse índice, ao lado da baixa qualificação da vaga e da relação com a liderança direta. Como mostramos no guia de custo de turnover, cada saída recontratada carrega rescisão, aviso prévio, multa de FGTS, recrutamento e o tempo de rampa do substituto: um turnover de 58% ao ano, num time de 100 pessoas na operação, significa repor 58 posições todo ano, na mesma loja. Se um segundo dia de descanso reduzir esse índice mesmo que de forma modesta, parte do custo extra da folha pode voltar como economia de reposição, algo que nenhuma das estimativas setoriais deste texto tentou medir. A calculadora de custo do turnover e o termo turnover no glossário ajudam a colocar esse lado da conta ao lado do custo da nova escala.

#Como colocar isso no planejamento de headcount antes do Senado votar?

Modelando três cenários de jornada, com dados da própria operação, em vez de esperar por um só número final.

  1. Mapeie quais posições estão hoje em escala 6x1. Nem toda empresa tem operação em turno, e a PEC pesa quase só sobre quem tem. Isolar essas posições evita simular um impacto que a folha inteira não vai sentir.
  2. Simule os três tetos de jornada (44h, 42h e 40h) para essas posições. Use o salário e os encargos reais de cada uma, não a média nacional do setor: a mesma mudança pesa de forma muito diferente numa operação com salário mínimo e numa com piso de categoria mais alto.
  3. Compare o custo de abrir headcount novo com o custo atual de turnover dessas mesmas posições. Em operações com rotatividade acima de 50% ao ano, parte do headcount adicional pode custar menos do que parece, se reduzir a reposição constante que já está na folha hoje.
  4. Trate a data de votação como incerta, não como zero. Um cenário com margem para o Senado aprovar ainda em 2026 custa menos, em retrabalho de orçamento, do que ser pego sem plano nenhum se a PEC virar lei antes do previsto.

O Congresso ainda vai decidir o calendário. Quem decide o orçamento de pessoal não precisa esperar por ele: colocar o cenário de 42 e de 40 horas na revisão trimestral de headcount e no forecast de pessoal é o que separa reagir à lei de já ter a conta pronta quando ela sair do papel.

Aprovação da PEC 221/2019 na Câmara dos Deputados em dois turnos (461 votos a 19 no segundo turno), maio de 2026, com o deputado Paulo Azi como relator, e transição da jornada (44h → 42h em 60 dias → 40h em 1 ano, sem redução de salário): Câmara dos Deputados e Agência Brasil. Status da tramitação no Senado (discussão sobre o ritmo de análise em julho de 2026, retomada prevista para agosto, exigência de 3/5 dos votos em dois turnos): Agência Senado. Estimativas de custo do comércio (R$ 122,4 bilhões/ano, alta de 21% na folha, R$ 357 bilhões somando serviços, repasse de até 13% aos preços, queda de 5,7% no excedente operacional bruto, R$ 73,3 bilhões a valor presente): estudo da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), divulgado em 23 de fevereiro de 2026. Impacto abaixo de 1% no custo total da empresa em indústria e comércio, com alta de custo médio de mão de obra de cerca de 8% na jornada de 40h: estudo do Ipea, fevereiro de 2026. Estimativa de 30,4 mil novas contratações em quatro segmentos do varejo e queda projetada de 9,5% no Ebitda do setor (13,6% no farma): relatório do BTG Pactual. Custo adicional de R$ 2,4 bilhões por ano no varejo da cidade de São Paulo: Sindilojas-SP. Alta de custo de mão de obra de cerca de 20% e repasse de 7% a 8% no cardápio em bares e restaurantes: estimativas setoriais citadas pela imprensa econômica em 2026. Cenário de jornada de 36 horas gerando até 4,5 milhões de empregos, alta de produtividade de cerca de 4% e 21 milhões de trabalhadores acima de 44 horas semanais, e a citação de Marilane Teixeira: Dossiê 6x1, Cesit/IE-Unicamp, com base na Pnad Contínua do IBGE, fevereiro de 2026. Rotatividade do varejo brasileiro (36%, 2023): Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) com a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). Rotatividade de supermercados (58,2% na média nacional, de 37,9% no Rio de Janeiro a 70,1% no Espírito Santo, 2023): Future Tank, consultoria da Asserj. Rotatividade do varejo paulista (60,3%, 2025) e de bares e restaurantes (77,6%, 2023, Bússola & Cia): levantamentos setoriais citados pela imprensa de varejo.

#Perguntas frequentes

O que é a PEC do fim da escala 6x1?
É a PEC 221/2019, aprovada pela Câmara dos Deputados em dois turnos em maio de 2026 (461 votos a 19), que acaba com a escala 6x1 (seis dias trabalhados, um de descanso) e institui dois dias de descanso semanal obrigatórios. A jornada máxima cai de 44 para 42 horas em até 60 dias após a promulgação, e para 40 horas um ano depois, sem redução de salário. O texto segue para votação no Senado.
Quanto o fim da escala 6x1 pode custar para as empresas?
As estimativas divergem muito. A CNC calcula R$ 122,4 bilhões de custo adicional por ano só no comércio (R$ 357 bilhões somando serviços), enquanto o Ipea estima um impacto abaixo de 1% no custo total da empresa em setores como indústria e comércio. O BTG Pactual projeta 30,4 mil novas contratações necessárias em quatro segmentos do varejo.
O fim da escala 6x1 já está valendo?
Ainda não. A PEC foi aprovada pela Câmara dos Deputados em maio de 2026 e segue para o Senado, onde precisa de 3/5 dos votos (49 senadores) em dois turnos para virar emenda constitucional. Até a publicação deste texto, não havia data confirmada para essa votação.
O fim da escala 6x1 pode ajudar a reduzir o turnover?
É uma possibilidade discutida por quem defende a mudança, embora nenhuma das estimativas de custo setorial citadas neste texto tenha medido esse efeito. A rotatividade da linha de frente já é altíssima no Brasil (36% no varejo em geral, 58,2% em supermercados, 77,6% em bares e restaurantes), e jornada estendida é um dos fatores mais citados para esse índice.
Como planejar o headcount antes de o Senado votar a PEC?
Mapeando quais posições estão hoje em escala 6x1, simulando os três tetos de jornada (44h, 42h e 40h) com o salário e os encargos reais dessas posições, comparando o custo de headcount novo com o custo atual de turnover, e tratando a data de votação como incerta, não como zero, ao montar o cenário de orçamento.
Vamos conversar

Veja o custo real da sua folha em 20 minutos.

Agende uma demonstração com a sua própria base ou comece a explorar agora. Sem cartão, sem compromisso — só o número certo na sua frente.

Resposta em até um dia útil · Atendimento em português